terça-feira, 2 de novembro de 2021

Saco de bivaque e conjunto casaco/calças lightweight, em Gore-tex do exército britânico. Valem a pena?

A propósito de compras recentes numa loja de Surplus sediada na Estónia, alguns amigos pediram-me uma avaliação a alguns dos artigos que adquiri. Entre muitas coisas, optei por começar pelas mais interessantes em termos de qualidade/preço, sendo que também são aquelas em que é mais importante ter uma opinião fundamentada sobre a sua qualidade e funcionalidade.

A segunda parte deste artigo tem a ver com calçado impermeável e pode ser consultada aqui: https://testes-e-reviews.blogspot.com/2022/

Assim, aproveitando estes dias de chuva, testei um saco de bivaque em Gore-tex “militar” britânico (é na mesma PTFE trilaminado, mas não usa a marca “Gore-Tex” por questões contratuais) e 2 casacos no mesmo material. O exército britânico tem diversos tipos de casacos impermeáveis, mas apenas testei o modelo "lightweight".

Para comparação com equipamento de uso “civil” em desportos de montanha, recorri a um saco de bivaque em Gore-tex que recentemente restaurei e a um casaco em “Gore-tex Pro”, especialmente vocacionado para usos extremos em climas inóspitos.

O teste (subsequente a algum uso em ambiente de montanha, dos casacos e do saco de bivaque após restauro) foi simples. Pendurei os artigos, reguei-os abundantemente com o jato da mangueira e deixei-os durante 24 horas sob chuva bastante forte. Pelos meus cálculos, durante a tarde e noite terá chovido durante cerca de 12 horas. De manhã fiz a avaliação dos resultados.

 

 
Aproveitar a chuva para estender a roupa. A vizinhança até ficou admirada 😲

Primeiro inspecionei os interiores dos sacos de bivaque e dos casacos. Depois sacudi os exteriores para avaliar até que ponto os DWR (Durable water repellent) são eficazes. No saco de bivaque militar faltou o teste à capacidade de transmissão de vapor, porque ainda não dormi nele, mas é de salientar que já usei os casacos de Gore-tex agora testados e estão dentro dos parâmetros expectáveis, portanto não é de supor que o saco de bivaque tenha qualquer falha nesse aspeto, até porque é usado para dormir, portanto em condições menos exigentes do que os casacos, usados sob esforço físico.

Começo esta avaliação pelos sacos de bivaque, aproveitando – a título de introdução – algo que há décadas escrevi para um Manual de Iniciação ao Montanhismo.

Sacos de bivaque

Os sacos de dormir não servem só para usar dentro da tenda. Na realidade, há muita gente que só usa a tenda esporadicamente, preferindo poupar peso e dormir ao relento. De verão, ou com tempo estável, essa é a opção mais lógica. Uma noite ao relento com um teto de estrelas é algo de inolvidável. Mas, com chuva, orvalho intenso, ou neve e granizo, já as coisas não são agradáveis, pois os sacos de dormir não são impermeáveis. Foi exatamente por isso que surgiram os sacos de bivaque. São sacos dentro dos quais se enfia o saco de dormir e que são feitos em materiais que respiram bem, evitando a condensação interior, são à prova de vento e (uns mais, outros menos…) são impermeáveis.

Uma vantagem adicional de um bom saco de bivaque é o facto de poder ser usado como refúgio de emergência, em situações em que seja pouco prático o transporte de um saco de dormir, quando o terreno não permite a montagem de tenda, ou, por e simplesmente, porque não se prevê a pernoita e se leva o saco de bivaque para o caso de algo correr mal.

Os sacos de bivaque servem também para aumentar ligeiramente o nível de isolamento dos sacos de dormir e aumentam-lhes imenso as performances no caso de exposição ao vento.

No entanto, os sacos de bivaque não substituem as tendas. Em caso de mau tempo prolongado não oferecem mais do que um “desenrasque” por uma noite e, ao contrário de uma tenda, não permitem operações tão simples como o mudar de roupa ou cozinhar.

Apesar de tudo são uma aquisição aconselhável. Sobretudo agora, que têm preços acessíveis. Mesmo para quem não abdique de dormir na tenta, são um reforço da segurança porque podem ser facilmente transportados em saídas de curta duração mesmo quando não se preveja pernoita na montanha.

Embora existam sacos de bivaque em materiais distintos, os melhores serão os sacos em Gore-Tex, pois representam o balanço certo entre a impermeabilidade e a capacidade de transmissão de vapor. É que a impermeabilidade é fácil de obter, bastaria um saco plástico de dimensão adequada, o problema é ter impermeabilidade sem condensação nem humidade no interior.

Neste teste foram comparados dois modelos. Começo pelo modelo mais antigo.

Phoenix Bivy Bag (Field & Trek)

Antigamente os sacos de bivaque eram tão caros que até traziam dentro uma rapariga jeitosa, claro que depois foi necessário casar com ela 😉

Medidas: 172cm até à aba inferior da abertura e 216cm até à superior, peso 615g.

Já não se fabrica. Custou 60 contos em 1992… Ou seja, o equivalente a 300€, o que na época era uma fortuna.

Este saco tem um desenho retangular e fecho de correr duplo que é coberto por uma generosa aba que o protege e fecha por velcro.

Mesmo quando novo, apenas aguentava uma noite sob chuva intensa. Tem uma capacidade para transmissão de vapor verdadeiramente excecional e por isso (embora não seja aconselhável) já me permitiu dormir dentro dele completamente fechado e tendo o exterior molhado. Essa conjetura diminui bastante a capacidade para o saco “respirar”, favorece a condensação interior e até pode constituir perigo, pois aumenta a concentração de CO2 dentro do saco, uma vez que o nylon exterior pode ficar tão impregnado de água que deixe de permitir trocas gasosas. Porém, o tipo de Gore-tex em que é feito é mais “respirável” do que o atual Gore-tex Paclite. Em contrapartida não é tão impermeável como o já então existente Gore-tex de 3 camadas, nem quanto as versões mais modernas deste material, nomeadamente o Gore-tex pro..

Em termos práticos; dá para dormir uma noite sob chuva torrencial, mas na manhã seguinte o interior do saco de bivaque já estará molhado, tal como exterior do saco de dormir. Se for só para uma noite serve, pois a quantidade de água que entra não é suficiente para chegar ao interior do saco de dormir. Também é suficiente para várias noites com meros aguaceiros e é excelente para alta-montanha, em ambientes em que não há precipitação de água em estado líquido e com temperaturas muito baixas que favorecem a condensação interior.

Após muito uso tive que o restaurar, coisa que fiz este verão. O restauro passou por lavagens com um produto especial para Gore-tex; “Nikwax Tech Wash” (fazendo uma lavagem de um lado e depois outra com o saco virado do avesso ), depois selei as costuras, que ainda não eram do tempo da tecnologia de termo-selagem atual, usando o “GEAR AID Seam Grip WP” e por fim o exterior do saco levou (por duas vezes) com “Nikwax TX Direct” como DWR. Depois disso dormi 3 noites nele sem qualquer problema de condensação. Faltava-me testar a impermeabilidade.

Durante os testes acima referidos verifiquei que parte do revestimento exterior tinha manchas que indiciavam estar impregnado de água (afinal o Nikwax TX Direct não é assim tão bom) e o interior estava molhado.

 

 
Na imagem notam-se as manchas que correspondem às zonas onde o DWR falhou

No interior da bolsa formada pelo saco pendurado, encontrei alguma água, o equivalente a cerca de 2 chávenas de café, mas praticamente toda a face que ficou exposta à chuva estava molhada por dentro, ao ponto de ao espremer caírem umas gotas de água. Como o saco ficou pendurado de modo a que a chuva apenas incidisse sobre área sem costuras, a entrada de água só pode ter sido através do próprio Gore-tex.

 

 
Ao espremer, os filamentos que protegem a película de Gore-tex soltaram umas gotas de água

Em resumo, o saco está como novo, ou seja, com todas as limitações e virtudes que já tinha… O uso aconselhado continua a ser aquele que eu já conhecia. Precisamente por isso comprei o modelo que se segue.

 

British Army Bivy Cover MVP MTP

Medidas: 213cm até à aba inferior da abertura e 258cm até à superior, peso 780g. É em camuflado, padrão MTP (Multi-Terrain Pattern), preço 60€ (https://www.outdoors.ee/en/a/british-army-bivy-cover-mvp-mtp-2)

Este saco é o atualmente usado pelo exército britânico. É excecionalmente grande, mesmo para alguém com 1,88, como eu. Não só é comprido, como muito largo, por isso permite dormir com a colchonete por dentro e ainda ali guardar todo o equipamento que se possa molhar. Permite ainda criar uma estrutura tipo túnel, improvisando uma armação com 2 paus, bastões de caminhada ou mesmo só com o cordão que fecha a abertura, se este for preso a um ramo.

No teste aguentou excecionalmente bem. O interior estava seco, embora talvez tivesse uma ligeiríssima humidade. Mas mesmo espremendo com toda a força não consegui uma única gota de água, portanto pode ter sido só a sensação de frio ao toque.

O material que reveste a película Gore-tex, na face exterior, é macio ao toque e “quente”, possui um DWR excelente. Depois de sacudir o saco, apenas se notaram pequeníssimos (e poucos) pontos em que esse tecido ficou molhado.

 

 Mesmo após tantas horas sob chuva, bastou sacudir para que o exterior ficasse praticamente seco

Todas as costuras são termo-seladas e muito fortes, tal como o revestimento interior e exterior, ou não fosse este um artigo para uso militar. Claro que o facto de ser tão robusto implica maior peso, porém, mesmo com este tamanho gigantesco, só pesa 780g, que é menos do que o peso anunciado (900g) e apenas 165g mais que o meu saco de bivaque para alta-montanha.

O único inconveniente que vejo neste saco é o sistema de fecho. É um sistema igual ao dos sacos de dormir e isso significa que se tem que proteger a abertura (fechada ao máximo, fica com um orifício do tamanho de um punho fechado).

 


Para proteger esse orifício, pode-se usar o saco com a parte superior virada para baixo e fazendo um “chapéu” com a aba maior, ou usar uma qualquer proteção impermeável que cubra essa zona; por exemplo um chapéu impermeável de abas largas, ou metendo essa zona da cabeça dentro da mochila vazia (recordo que o saco é tão grande que dá para dormir com tudo dentro dele, portanto a mochila fica vazia). Pode-se improvisar um suporte para esse “túnel” criado pela mochila, usando um pau ou bastão de caminhada. Este último método parece-me o mais confortável e aconchegante em caso de chuva intensa.

Dobrado, o saco ocupa muito pouco espaço, como se pode ver na foto seguinte.

Eu sei que era melhor ter usado uma garrafa de cerveja como testemunho métrico, mas como estou de dieta...

Veredicto final; não há qualquer dúvida que é excelente!

Só custa 60 € (o envio para Portugal fica por 19 €), é extremamente robusto e de impermeabilidade garantida mesmo com a chuva intensa.

Passará a ser o saco que vou usar e o outro fica apenas para neve.

 

Casacos de Gore-tex

 

Para controlo e comparação usei o casaco da Montain Equipment “ME Tupilac Jacket” (https://www.mountain-equipment.de/products/tupilak-jacket).

 Montain Equipment Tupilac Jacket

 

Este casaco é um modelo topo de gama. Custa 479 € na loja oficial da UE e pesa 600g em tamanho XXL. Tem 5 bolsos estrategicamente colocados e um capuz muito bem desenhado para suportar tempestades. Tem diversas funcionalidades e particularidades de desenho que não irei aqui abordar, pois não é este artigo que estou a analisar. É fabricado no tipo de Gore-Tex mais caro, o “Gore-Tex Pro”. (https://www.gore-tex.com/technology/original-gore-tex-products/pro).

Após ter ficado à chuva juntamente com o restante material, verifiquei que o interior estava completamente seco e que no exterior apenas existiam algumas zonas em que o DRW falhou. Pode ter sido coincidência, mas essas zonas correspondem à superfície de contacto com a mochila e isso pode ser o resultado de já ter algum uso com uma mochila bem pesada e durante muito tempo.

 

 Detalhe da zona das costas, onde se nota da falha do DWR

Em todo o caso, o interior estava completamente seco. Este resultado não  surpreende, pois, como disse, este é um casaco de topo de gama.

 

 O interior do casaco ficou completamente seco, mesmo na zona correspondente à falha do DWR
 

  

British Army Lightweight Waterproof MVP Jacket MTP



É em padrão camuflado MTP. Pesa 480g em tamanho XL (adequado a utilizadores com 1,90m de altura), preço: 45€ (https://www.outdoors.ee/en/a/british-army-lightweight-waterproof-mvp-jacket-mtp).

No teste a este casaco foram usados dois exemplares, que correspondem a versões ligeiramente diferentes quanto à cor e material exterior. Um é de cor mais clara (será o padrão Tropical MTP) e o outro tem os tradicionais tons mais acastanhados do padrão MTP britânico. A razão para testar os dois prende-se com o facto do tecido exterior ser diferente, por isso quis saber qual seria o melhor. O teste deu para perceber que o desempenho dos dois casacos é igual, no entanto o tecido de cor “normal” é mais confortável ao toque e parece quente quando comparado com a outra versão

O exterior é em material muito leve, mas ainda assim bastante resistente para os padrões civis de vestuário para montanhismo. Tem um desenho extremamente simples. Infelizmente só tem um pequeno bolso no topo de cada manga e não têm capuz (!!!) Esta é a grande falha!

A ausência de capuz tem a ver com opções do Exército Britânico que não irei aqui abordar. Mas, independentemente desses motivos, foi errado terem optado por um desenho sem capuz, pois poderiam ter escolhido um com capuz destacável, que serviria ainda melhor os parâmetros estabelecidos.

Para substituir o capuz tenho usado um chapéu da Decathlon “Chapéu de Trekking Impermeável-MT900” (https://www.decathlon.pt/p/chapeu-de-trekking-impermeavel-mt900-cinzento-escuro/_/R-p-302968?mc=8526271&c=CINZENTO) que custa 15 € e aguenta muito bem a chuva, respira e é confortável. Contudo, com vento forte e chuva não é eficaz.


O chapéu da Decathlon é muito leve e aguenta bem a chuva graças ao seu DWR
 
Outra alternativa é complementar estes casacos com os barretes militares de Gore-tex e forro polar, só que esses não cobrem o pescoço e se chover muito acaba por entrar água através da gola do casaco.

Saliento que esses barretes são quentes e confortáveis, pelo que servem de excelentes carapuços para o frio, até porque cobrem as orelhas. Tenho 3 modelos desses com desenho semelhante; um é o britânico “British Army Cold Weather Field Cap MVP MTP” (https://www.outdoors.ee/en/a/british-army-cold-weather-field-cap-mvp-mtp), outro é o antigo modelo britânico em camuflado DPM, com abas maiores, ao qual retirei o forro polar para não ser tão quente (https://www.outdoors.ee/en/a/british-army-cold-weather-field-cap-mvp-dpm-5 ) o terceiro é o modelo do exército holandês,  “Dutch Army Cold Weather Field Cap MVP Olive” (https://www.outdoors.ee/en/a/dutch-army-cold-weather-field-cap-mvp-olive).

Por menos de 10€ podemos comprar qualquer um desses barretes impermeáveis e quentes.

 


Claro que se pode usar simultaneamente o referido chapéu e um destes barretes, pois assim a proteção é quase completa. Todavia nunca será tão eficaz como com um capuz bem desenhado.

Sob as mangas, junto aos sovacos e até meio do torso, estes casacos têm aberturas para ventilação, dotadas de duplos fechos de correr impermeáveis. Os punhos têm fechos ajustáveis por velcro e a gola tem um forro felpudo, tipo forro polar.

O resultado do teste foi excelente; os interiores dos dois casacos mantiveram-se completamente secos.

 
 O interior dos dois casacos militares estava completamente seco

No que concerne ao DWR, notei melhor qualidade nos casacos militares. Mas isto pode ter a ver com o facto destes dois casacos terem menos uso que o da Moutain Equipment. Portanto não consigo uma comparação fidedigna. Em todo o caso a qualidade do DWR é excelente, sobretudo no casaco com o padrão mais escuro.

 Apenas alguns minúsculos pontos onde o DWR falhou, neste caso no casaco de padrão "tropical"

É importante que não haja equívocos quanto à comparação destes casacos baratos com o da Montain Equipment. Não só esse tem um desenho muito mais funcional e com provas dadas em climas extremos, como, sendo em Gore-Tex Pro, respira muito melhor, permitindo o mínimo possível de condensação interior. Mas estes casacos militares não são de desprezar, mesmo não tendo capuz. A sua grande vantagem é o preço, mas também o baixo peso.

Aproveito para referir que estes casacos são complementados por calças do mesmo tipo, padrão e material. São as “British Army Lightweight Waterproof MVP Trousers MTP”, que custam 33 € e são excelentes (https://www.outdoors.ee/en/a/british-army-lightweight-waterproof-mvp-trousers-mtp-15).


Já usei (até à destruição) diversos modelos de calças de Gore-tex, mas nunca me senti verdadeiramente satisfeito quanto à impermeabilidade. Normalmente ao fim de alguma horas caminhando sob chuva forte a zona acima dos joelhos começa a ficar molhada por dentro. Isso tem a ver com o constante atrito interior que reforça a absorção da água por capilaridade. Apesar de ainda não as ter usado sob chuvadas intensas, estas calças militares parecem-me as melhores que tive até hoje. O facto de as ter escolhido num tamanho acima ajuda, pois ficam mais largas e isso diminui o contacto com as calças interiores.

São bastantes funcionais pois podem ser vestidas sem retirar as botas (mesmo que estejam com crampons montados) graças aos fechos de correr que vêm até à zona da cintura. Apesar de não terem bolsos, os fechos de correr são duplos e abrem nos dois sentidos, permitindo fácil acesso aos bolsos das calças interiores.

Não só pelo seu baixo preço, mas também pelo seu baixo peso; as minhas pesam 450g, em tamanho XXL (que é para pessoas com 2m de altura), são de aconselhar.

Espero que este “review” ajude quem esteja interessado em adquirir equipamento deste tipo.

Não tenho qualquer interesse económico nem estou relacionado com a loja que indiquei para efeitos de indicação de preços. Apenas escolhi essa porque foi aquela em que vi preços mais baratos. 

Peço que se copiarem o texto ou se o vierem a usar noutras publicações façam menção à sua autoria.

Vítor Teixeira © 2021

 

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