A propósito de
compras recentes numa loja de Surplus sediada na Estónia, pediram-me uma
avaliação a alguns dos artigos que adquiri. Após a primeira publicação neste
Blog, sobre sacos de bivaque e roupa impermeável (ver publicação de Novembro 2021 https://testes-e-reviews.blogspot.com/2021/11/ ), nesta segunda parte termino a avaliação dos restantes artigos.
P.s. As fotos foram formatadas para caber na página, mas clicando sobre elas abrem no tamanho maior e podem ser ampliadas.
Desta vez os testes incidiram sobre calçado. Desde as meias, até às botas, passando pelas polainas e por produtos para tratamento das botas.
Importa explicar que ao longo dos muitos anos em que pratiquei Montanhismo, fui usando diversos tipos de botas; desde as pesadas botas de couro tradicionais, para uso geral, até às botas plásticas duplas, para escalada em gelo e uso em alta-montanha. Com o aparecimento das películas impermeáveis com capacidade para “respirar”, comecei a utilizar botas em material sintético para caminhadas e marchas em terreno misto de média montanha durante todo o ano.
Desde muito cedo fiquei desiludido, pois percebi que a impermeabilidade do calçado não passava de um mito. De facto, após ter utilizado até à destruição diversas botas com interior em Gore-Tex, Simpatex, Weathertite Xtreme (WTX) ou outras membranas “impermeáveis”, percebi que essa impermeabilidade se resume a alguns minutos, ou – com muita sorte – um par de horas sob chuva intensa. A partir daí os pés ficam molhados. Note-se, porém, que ao longo dos anos o Gore-Tex usado no calçado foi evoluindo e atualmente existem 3 tipos específicos para este fim, para além do vulgar Gore-Tex. A seguir falarei nisso com mais detalhe.
Entretanto, descobri que também existem meias impermeáveis com propriedades semelhantes ao Gore-Tex e decidi experimentar as da marca SealSkinz. A intenção foi ver até que ponto a sua utilização permitiria manter os pés secos, mesmo em condições muito adversas.
Por uma questão de sistematização, começarei esta análise precisamente pelas meias impermeáveis.
Meias impermeáveis
As meias testadas são as de cano alto usadas pelo exército britânico “SealSkinz Duty Military Issue”.
São difíceis de encontrar, mas às vezes conseguem-se comprar no Ebay, Amazon e em lojas online. Também há várias versões civis da marca SealSkinz, mas a equivalente a estas é muito mais caras e normalmente têm que vir do Reino Unido, o que implica taxas alfandegárias proibitivas.
As usadas no
teste são estas: https://www.outdoors.ee/en/product/british-army-sealskinz-waterproof-knee-length-socks/ e custaram cerca de 20 €, mais despesas de transporte (que reparti por
diversos outros artigos). A este preço não encontrei em nenhum outro local, o normal é custarem o dobro.
Para o primeiro teste, decidi calçar as botas “Karrimor Hot Rock” https://pt.sportsdirect.com/karrimor-hot-rock-mens-walking-boots-182201 que de impermeáveis nada têm. Basta por um pé num charco para entrar água.
Usei estas meias em contacto direto com os pés, ou seja sem qualquer outro par por dentro. As meias são suficientemente grandes para permitir o uso de mais um par de meias grossas no interior, mas quis testar o seu conforto e ver se não causavam bolhas.
Os primeiros 45 minutos de caminhada foram em terreno seco e deu para perceber que as meias são confortáveis e respiram bem. Fiquei surpreendido, porque quando as manuseei pareceram-me anormalmente rígidas.
Depois passei a aproveitar todos os charcos e regatos para molhar os pés, tendo apenas o cuidado de não deixar entrar água pela parte superior do cano das botas.
Logo no primeiro charco percebi que as botas já tinham metido água com fartura, mas não senti os pés molhados nem frios. Continuei a caminhada, que durou cerca de 1h50m (cerca de 8,5Km em estradões e caminhos de pé posto, com desníveis acentuados). Ao fim de mais uns 30 minutos e já depois de ter “estacionado” num ribeiro durante 2 minutos com as botas dentro de água, comecei a ficar com os pés frios.
No final da caminhada fiquei com dúvidas quanto à impermeabilidade das meias, pois os pés estavam frios e parecia-me que já os tinha húmidos.
Ao chegar a casa retirei as botas e lavei as meias com a mangueira. A seguir fui para a banheira e comecei a lançar água morna para ver se os pés, ainda dentro das meias, aqueciam. Ao fim de poucos minutos a temperatura da água no exterior das meias começou a sentir-se nos pés. Nessa altura já tinha parte das meias submersas.
Só depois de tudo isto retirei as meias, tendo tido o cuidado de as ir virando do avesso sem deixar saltar água para o interior.
Os pés estavam secos! Completamente secos.
Ou seja, após mais de uma hora com água dentro das botas, depois de lavar o exterior das meias com mangueira e de me ter metido na banheira com elas, apenas notei umas ténues manchas de humidade na face interior, mas nada que tivesse molhado os pés. As manchas coincidiram com as zonas onde as meias mais roçam nas botas, o que indicia que terá sido essa pressão adicional que fez com que alguma água penetrasse.
Fiquei tão admirado com a prestação destas meias que decidi fazer um segundo teste. Dessa vez repeti o percurso, mas usei umas sapatilhas de verão, sem qualquer impermeabilidade e malha aberta.
Como quis perceber se conseguia deixar de sentir o desconforto da água fria no exterior, calcei um par de meias para frio extremo no interior das SealSkinz.
As meias usadas no interior foram as “Lorpen Tep Trekking Expedition” https://www.barrabes.com//lorpen-tep-trekking-expedition/p-125405 que são mesmo muito quentes e concebidas para atividades invernais e de alta-montanha.
O percurso foi o mesmo e feito nas mesmas condições, sendo os primeiros 45 minutos por terreno seco, para eu perceber se as meias da Lorpen eram confortáveis no contacto com os pés, pois estavam a ser estreadas. Fiquei satisfeito quanto a esse aspeto, mas confesso que são demasiado quentes para uso normal, sobretudo com as SealSkinz por fora.
Com o caminhar nos charcos os pés refrescaram. A temperatura ambiente rondava os 11 Cº, mas a água dos charcos e regatos estava bastante mais fria. As meias da Lorpen mantiveram os pés a uma temperatura confortável.
Já depois do sol se ter posto os pés ficaram desconfortavelmente frios. Mas note-se que desta vez a caminhada demorou mais tempo (depende de quem me acompanha) e acabou por ser mais de uma hora e meia com os pés sempre a entrar em tudo quanto era charco. Como já estava escuro, a temperatura já tinha baixado bastante e isso contribuiu para o arrefecimento dos pés.
Tal como tinha feito da primeira vez, lavei as meias com o jato da mangueira e retirei-as cuidadosamente. Apesar dos pés estarem completamente secos, o interior das SealSkinz estava nitidamente húmido, bem como a face exterior das meias interiores da Lorpen.
Em cima as meias da Lorpen, (faces externa e interna) e em baixo as meias SealSkinz viradas do avesso.
Conclusão
Esta meias permitem reforçar de forma eficaz a proteção que as banais botas alegadamente impermeáveis oferecem.
Note-se que estes dois testes forçaram o seu uso em condições improváveis, pois não é normal que se ande a meter os pés em tudo o que for charco e menos ainda que se esteja com os pés dentro de ribeiros durante alguns minutos. Portanto tenho a certeza de que em condições normais as meias irão garantir que os pés ficam secos.
O uso em sapatilhas de corrida, mostrou que a impermeabilidade das meias não é absoluta, pois acabou por entrar alguma água, embora essa quantidade não tivesse sido suficiente para molhar os pés nem sequer para humedecer a face interior das meias mais quentes que eu tinha por dentro.
Este modelo de meias SealSkinz parece-me ser suficientemente robusto para aguentar várias utilizações sem perderem as características, pelo menos desde que lavadas de acordo com as instruções do fabricante.
Em resumo,
recomendo-as para uso no inverno com botas cuja impermeabilidade não seja
garantida e também para corridas em terreno de montanha ou sempre que se tenha que andar
durante longos períodos de tempo a passar por zonas com água.
Note-se que nem sempre estão disponíveis no site aqui indicado, mas regularmente voltam a aparecer. Já experimentei comprar dois pares em estado "Pre-owned, SuperGrade" por cerca de 15 € cada e estavam novas, apenas tendo os elásticos superiores um pouco mais largos do que o normal. As novas - a preços de 2024 - rondam os 26 €.
***
Botas
Serão todas impermeáveis?
Para este teste utilizei 3 pares de botas sendo um deles já com algum uso e dois a estrear. Foram elas:
Botas Karrimor “Hot Rock”
São botas ligeiras em material sintético. Comprei-as na loja da SportsDirect da Maia, sendo que na altura o preço foi de aproximadamente 100 € (o da hiperligação que se segue é o preço de saldo no Reino Unido) https://pt.sportsdirect.com/karrimor-hot-rock-mens-walking-boots-182201
Neste momento têm 10 meses e cerca de 150 Km de uso misto em estradão e monte (dá para calcular porque quase todas as caminhadas que fiz foram com registo de trilhos no GPS). Estão muito gastas, mais do seria de esperar para o uso que têm.
Saliento que no dia-a-dia é normal eu usar sapatilhas da Karrimor e já estou habituado à fraca qualidade do calçado desta marca. Os forros duram muito pouco, ficando rapidamente gastos junto ao calcanhar, os cordões gastam-se rapidamente (como se nota na foto estes já tiveram que ser substituídos) e as solas também não duram muito.
Tanto nas sapatilhas, como nas diversas botas que já usei, nunca notei impermeabilidade, mesmo quando têm a membrana Weathertite, nem sequer com a versão superior: Weathertite Xtreme (WTX). Estas botas não escaparam à regra, mas sempre fiquei com alguma suspeita de que essa impermeabilidade se tivesse perdido ao longo do tempo por causa do uso.
Em termos globais, as botas não são nada de especial. Dão para caminhadas em tempo seco, mas, mesmo assim, ao nível do conforto não são indicadas para terrenos muito irregulares, sobretudo para aqueles pisos com muitas pedras.
A sola é fina e a camada de amortecimento entre a sola e o interior da bota é ainda mais, para além de ser pouco resiliente. Não são nada boas para terrenos mais difíceis pois sentem-se as pedras pequenas que se pisam. Claro que usando palmilhas de qualidade (coisa que não são as “Ortholite” ultra finas com que vêm) o conforto ao nível da planta dos pés torna-se aceitável.
Conforme percebi no teste das meias, apesar das botas não serem impermeáveis, se as usar com as meias SealSkinz os pés ficam secos, portanto nessa condição podem ser usadas de inverno.
Em resumo, não são botas para uso intensivo em terreno acidentado. Dão para caminhadas em terrenos simples e são baratas, mas duram pouco e não são impermeáveis.
Botas Karrimor “KBS Skido WTX”
São botas todas em couro, também com a com película Weathertite Xtreme e sola Dynagrip
Estas botas foram compradas num saldo já há mais de 2 anos, mas mantive-as por usar porque tinha em uso umas da marca Salomon, as “QUEST Gore-Tex”, que são muito boas.
Como estas botas estavam novas (a foto acima foi tirada após os testes) decidi experimentar da mesma forma e no mesmo percurso. Isso, para saber até que ponto o Weathertite Xtreme é impermeável.
Desta vez tive
o cuidado de utilizar polainas para ter a certeza de que não iria entrar água
pela parte superior do cano.
No final da caminhada não senti os pés molhados, pelo menos até parar.
É de salientar que ao mesmo tempo estive a testar duas meias diferentes, para aferir o conforto de uma e para saber se o uso de duas em simultâneo seria possível com estas botas, pois estava a planear passar a usá-las de inverno. Por isso, no pé esquerdo calcei uma meia “Xsocks Trek Silver” https://www.barrabes.com//xsocks-trek-silver/p-143095 e no pé direito tinha uma dessas sob a meia da Lorpen já antes referenciada.
Quando me descalcei percebi que o interior das botas estava completamente molhado. A meia esquerda estava muito molhada e o pé também. Já o pé direito estava um pouco melhor, mas apenas porque nesse tinha calçado dois pares de meias.
Ambas as meias estavam molhadas. No pé direito até se nota a coloração mais escuro no peito do pé.
Conclusão; apesar da Karrimor apregoar que o calçado com Weathertite Xtreme é impermeável, estou certo de que não é.
Já suspeitava disso por causa das sapatilhas que tenho usado, mas este último teste com botas a estrear deu para perceber que mesmo sem qualquer desgaste essa proteção de pouco vale.
Aproveito para acrescentar que a Karrimor já não é o que foi até ao início dos anos 90. Era uma marca de topo, nomeadamente em mochilas muito bem concebidas e praticamente indestrutíveis. Após uma época em que esteve prestes a falir, a marca diversificou o seu mercado, mas a qualidade dos seus produtos decresceu de forma evidente. Atualmente o único resquício da qualidade original apenas se mantém na marca “Karrimor SF”, que continua a ter excelente qualidade, mas praticamente só fabrica mochilas extremamente caras e destinadas ao mercado militar.
Botas MEINDL “Extreme Combat Bundeswehr”
Como fiquei desiludido com as botas da Karrimor que previa usar no inverno e já não tinha nenhumas outras em condições porque a minha cadela apanhou uma das botas Salomon e roeu-a toda…, decidi comprar botas novas.
Quis o destino que quase por acaso me tivesse deparado com uma promoção em que consegui comprar por 99 € umas botas da Meindl feitas propositadamente para as forças especiais do exército alemão (Kommando Spezialkräfte) precisamente do meu número, ou seja, tamanho 47, o que nem sempre se encontra.
Estas botas são praticamente iguais às usadas pelo resto do exército alemão e à versão civil, as Meindl WI 12 https://www.bader-outdoor.de/en/shoes-boots/mountain-trekking-shoes/580/meindl-wi-12-black mas estas têm algumas melhorias, sendo que a mais notória é a banda de borracha a toda à volta, ao passo que as da “tropa normal” só têm uma proteção de borracha na zona frontal. Nas Meindl WI 12 há versões com mais ou menos isolamento térmico. Estas têm o isolamento térmico intermédio, constituído pelo “Gore-Tex Performance Comfort Footwear 4-ply laminate”.
Conseguem-se comprar estas botas em diversas lojas de Surplus e foi assim que adquiri as minhas: https://www.outdoors.ee/en/product/meindl-extreme-combat-bundeswehr-gore-tex-boots/ . Note-se que os preços variam muito e nem sempre se conseguem comprar botas novas. Todavia, as botas em estado “Pre-owned SuperGrade” nem sempre são usadas. Normalmente são botas novas que apresentam sujidade ou arranhões resultantes de mau acondicionamento e por isso são uma boa opção.
Preparação antes de usar;
Sobre estas botas e sobre quaisquer outras botas inteiramente em couro, interessa alertar para a necessidade de serem preparadas antes de as usar em pleno, para se irem adaptando aos pés.
Inicialmente é importante aplicar uma ou duas camadas de cera, ou creme gorduroso apropriado, sob toda a superfície em couro. Quando me iniciei no Montanhismo, o que se usava era o chamado “Sebo da Holanda”; umas velas de gordura animal que se iam esfregando no couro até este impregnar.
Desta vez usei um produto mais específico, o Meindl Sportwax, que amacia e reforça a impermeabilidade do couro. Encontra-se à venda na Decathlon https://www.decathlon.pt/p/creme-impermeabilizante-para-couro-meindl-sportwax/_/R-p-X8110722, tal como um outro produto da mesma marca, que é aconselhado para repelir a água, o Meindl Wet Proof https://www.decathlon.fr/p/spray-impermeabilisant-meindl-wet-proof/_/R-p-X8222199 .
A aplicação desta ou de outras ceras não deve ser em excesso, sob pena das botas perderem capacidade para “respirar” e de o couro perder demasiado a sua rigidez natural. Outro dos problemas resultantes do excesso de produtos semelhantes é que a partir de certa concentração acabam para passar para a face interior do couro e contaminar o forro de Gore-Tex, entupindo os seus poros.
Como há uns anos já fiz essa asneira e estraguei umas botas às custas da grande quantidade de gordura que lhes meti, desta vez tive o cuidado de aplicar apenas duas finas camadas, que deixei secar durante um dia. No dia seguinte escovei bem as botas com uma escova macia e só depois de a cera secar bem é que as comecei a usar.
Aproveitei umas férias à chuva para as estrear na cidade. Usei-as durante 5 dias em Bruxelas, sempre sob chuva. O tempo esteve péssimo e num dos dias chegou a chover torrencialmente. No final de cada dia ia vendo como estava o interior das botas e notei que estavam sempre secas, embora com um pouco de humidade. Fiquei intrigado quanto a essa humidade, até porque as meias se mantinham secas, o que me levou a suspeitar que fosse resultado de excesso de cera a impregnar o couro.
Quando cheguei a Portugal voltei a escovar bastante as botas e pareceu-me que eliminei a cera em excesso. Apliquei um pouco mais do Meindl Sportwax mas só nos locais onde se notavam as dobras do couro e na biqueira.
Voltei a fazer o percurso usado nos testes das outras botas. Desta primeira vez não as molhei, pois foi apenas para testar o conforto em terreno irregular, o desempenho global e a capacidade para respirarem.
Ao chegar a casa percebi que a tal humidade interior era bastante menor do que das primeiras vezes e realmente correspondia a suor que não passou para o exterior. Nada de anormal nem de preocupante, tanto mais que os pés e até mesmo as meias sempre se mantiveram secos.
Voltei a escovar bem as botas para as limpar da terra e poeira e apliquei o Meindl Wet Proof, pois na caminhada seguinte já iria andar na água. Este produto foi difícil de entranhar no couro porque já estava tratado com a cera. Deixei as botas completamente cobertas com o líquido, esfreguei e depois de algum tempo repeti o processo diversas vezes, até confirmar que o couro estava realmente impregnado. Depois deixei secar durante um dia e escovei para espalhar uniformemente a camada superficial.
O primeiro teste a sério, já passando por todos os charcos, como antes tinha feito com as botas da Karrimor, teve resultados excelentes.
Não só as botas mantiveram os pés completamente secos, como demonstraram ser muito confortáveis, quentes e dotadas de uma excelente aderência, mesmo em rochas molhadas. Confesso que nunca tinha experimentado umas botas com este desempenho.
Ao nível de repelência à água, o DWR da Meindl aguentou apenas durante metade do percurso, mas depois disso fracassou.
A questão da repelência à água não tem necessariamente a ver com a impermeabilidade das botas, pois essa deve-se ao Gore-Tex, mas tem implicações ao nível da água que o couro absorve. Quanto mais água o couro absorver, pior respira e mais tempo demora a secar.
Aproveitei, por isso, para experimentar um creme para calçado da marca Haix, que para além de dar brilho também alega reforçar a resistência à água e não estragar o Gore-Tex. Escolhi o de cor preta porque serve também para “engraxar” as botas.
Este produto “Haix Active Polish” encontra-se em diversas lojas e é o recomendado para as botas da Haix mas serve para quaisquer outro tipo de calçado. No Porto encontrei-o aqui https://fardasdelite.com/pt/creme-haix-75ml-preto
Depois de ter limpo as botas e do couro secar por completo, apliquei o produto. Depois de secar escovei as botas com uma escova macia. Ficaram como novas e a brilhar. Faltou saber se a repelência à água funcionava.
Para ter a certeza dos resultados de impermeabilidade decidi fazer mais um teste, mas dessa vez alongando um pouco o percurso habitual e escolhendo um dia em que esteve sempre a chover.
Aproveitei também para testar outras polainas, sendo que sobre essas falarei mais à frente.
Neste teste forcei tudo ao máximo: a exposição à água, o caminhar sobre o terreno mais irregular e os testes de aderência das solas.
O caminhar sobre cascalheira e pedras pontiagudas demonstrou que a sola e a camada intermédia entre esta e o interior das botas são excelentes a nível de amortecimento. Normalmente uso sempre umas palmilhas “Sorbothane Double Strike” ou as palmilhas em gel da marca “Sidas” https://www.decathlon.pt/p/palmilhas-cushioning-gel-azul/_/R-p-X8305792?mc=8305792 porque amortecem os choques das passadas e reforçam o conforto. Neste caso experimentei as botas apenas com as palmilhas originais (que não são tão boas) mas mesmo assim as botas passaram no teste.
Quanto à aderência em rochas molhadas, fiquei admirado. São as melhores solas que experimentei até hoje! Seja em botas ou em sapatilhas, nunca vi igual em rocha molhada. Note-se que há versões destas botas que têm solas Vibram e outras solas da Meindl. Creio que são iguais apenas variando no logótipo. As das minhas botas são as da Meindl.
A nível de impermeabilidade confirmei que os pés e meias se mantiveram secos até ao fim.
No que concerne a repelência à água, pareceu-me que o creme da Haix é melhor do que o spray impermeabilizante da Meindl. Depois de lavar botas e polainas com a mangueira, deu para percebeu que o couro absorveu menos água do que na caminhada anterior, mas não faz milagres, a partir de certa altura o couro, apesar de alegadamente hidrófobo, acaba por absorver água. Mas entre o produto da Meindl e o da Haix, prefiro este último, quanto mais não seja porque é mais fácil de aplicar.
A parte do cano está mais brilhante por ter estado protegida pelas polainas e aí o couro não absorveu água. Na parte mais baixa já se nota que o couro está molhado, mas absorveu menos água do que no teste anterior em que ainda não tinha sido aplicado o creme da Haix.Em termos gerais as botas são excelentes. Tanto a nível de impermeabilidade, como de aderência, de robustez e de conforto.
Tenho que ressalvar
que não se pode comparar o conforto de botas pesadas e preparadas para uso em
terrenos difíceis e com cargas pesadas, com aquele que oferecem as botas ligeiras
e as sapatilhas destinadas a pequenas caminhadas em estrada ou em terrenos
fáceis. São tipos de calçado diferentes, para usos diferentes. Se o uso for só de verão e em terreno fácil, o melhor será usar botas ligeiras ou sapatilhas.
Note-se que estas são botas desenhadas para todos os tipos de terreno e com o cano alto típico de botas militares. Há botas do mesmo fabricante com o cano mais baixo, que, naturalmente, pesam menos.
Para quem quiser perceber melhor porque é que estas botas têm tão bom desempenho a nível de impermeabilidade, esclareço que a Meindl usa uma série de tecnologias próprias que contribuem para este desempenho e que podem ser consultadas aqui https://meindl.de/technologies/?lang=en .
A nível de impermeabilidade, o desempenho explica-se pelo facto destas botas serem feitas num couro hidrófobo com 2,6 a 2,8mm de espessura e terem o interior em Gore-Tex utilizando a técnica de construção “Gore-Tex Surround”: https://www.gore-tex.com/technology/original-gore-tex-products/surround .
O Gore-Tex usado é de 4 camadas e especialmente concebido para calçado. Trata-se do “Gore-Tex Performance Confort Footwear”: https://www.goretexprofessional.com/technologies/gore-tex/performance-comfort-footwear
Sobre esta tecnologia de Gore-Tex usado em calçado para uso militar, recomendo a leitura deste excelente artigo, de onde retirei a imagem acima: https://www.joint-forces.com/footwear/18697-gore-tex-comfort-laminates-for-footwear
Conclusão:
São as melhores
botas para uso invernal em terreno de montanha que usei até hoje. Nunca experimentei nada tão impermeável!
Há botas mais
leves e mais indicadas para uso no verão em terreno fácil, mas para uso de
inverno prefiro estas.
Isto não significa que não existam botas de outras marcas, tão boas ou até melhores. Tanto a Meindl, como a Asolo, a Bestard, a Salomon e outras marcas, têm excelentes botas para uso em montanha. São certamente melhores do que estas, para essa finalidade, mas são muito mais caras. Também para uso militar e afins, há outras botas com um nível de qualidade que, em princípio (?), será parecido. Mas tanto nuns casos, como noutros, alerto para o fator que me parece ser determinante: o tipo de Gore-Tex em que são feitas.
É que, como disse no início, botas em Gore-Tex já tive muitas, mas nunca tinha visto impermeabilidade como nestas. O que me parece ter feito toda a diferença foi precisamente estas serem em Gore-Tex específico para calçado profissional, o "Gore-Tex Footware".
Dos 3 graus de isolamento térmico existentes, aconselho o "Performance Confort Footware". O "Extended Confort Footware" é de apenas 3 camadas (camada película de Gore-Tex entre duas camadas de tecido de suporte/proteção) e destinado a uso no deserto e climas quentes. Em contrapartida o "Insulated Confort Footware" parece-me ser demasiado quente para o nosso clima pois tem uma camada de isolamento térmico mais espessa que a deste "Extended Confort", que é mais versátil e adequado para climas variados.
Face aos resultados, vou continuar a usar estas botas até as gastar, ou até que a minha cadela lhes deite os dentes, como já fez com outro calçado cá de casa…
***
Polainas em Gore-Tex
Não sou muito adepto do uso de polainas pois são sempre mais peso a acrescentar e normalmente não se justificam, para além de serem algo desconfortáveis. No entanto, há situação em que são imprescindíveis e outras em que são aconselháveis.
Em caminhadas na neve fofa são realmente imprescindíveis, pois evitam a entrada de neve pelo cano das botas e também a sua entrada pela parte inferior das calças. Polainas para este fim não têm que ser muito impermeáveis nem particularmente resistentes pois destinam-se a impedir a entrada de neve, não da água e não são para usar em mato rasteiro. Precisamente por isso podem e devem ser leves.
As polainas também servem para impedir que a chuva deslize sobre as calças e acabe por entrar nas botas através dos canos. Para este tipo de uso, as polainas têm que ser mesmo impermeáveis e devem respirar evitando consensação.
A seguir podem-se ver polainas de ambos os tipos.
Polainas para neve:
No caso destas polainas do exército holandês, o seu peso é de 260g o par e só a sua parte inferior é em Gore-Tex. Essa parte corresponde à zona onde entra e sai ar junto ao cano das botas e por isso convém que respire muito bem. A parte superior é num nylon ripstop muito fino e não impermeabilizado para poupar peso.
São polainas boas para neve, mas para outros usos já não, pois não são suficientemente impermeáveis à água no estado líquido.
Custaram 21,90 € aqui: https://www.outdoors.ee/en/product/dutch-army-arwy-gore-tex-gaiters/
Polainas para chuva e neve:
Polainas integralmente em Gore-Tex, em padrão MPT, do exército britânico.
Estas polainas são as mais resistentes que alguma vez vi, mas também são muito pesadas. O par pesa 500g e isso explica-se pela construção extremamente robusta e com um desenho redundante. Desde o tipo de fecho de correr, passando pela duplicação de ganchos para prender nos cordões das botas, duplicação dos sistemas de fecho superior e por uma aba que cobre o fecho de correr e se fecha com velcro, mais duas (!!!) molas de pressão. Para mais o tecido exterior é Cordura de 1000 denier.
Não sei em que estaria a pensar quem estabeleceu estes requisitos... talvez em serem à prova de bomba 💥😀 Mas o que é certo é que são completamente impermeáveis e extraordinariamente resistentes.
Atendendo ao seu peso, não são material que alguma vez levasse para atividades em Alta-montanha, nem para uso apenas em neve. No entanto, para uso com chuva e em zonas com muito mato rasteiro são boas. Claro que para uso militar são as mais indicadas, mas essa é uma vertente que não abordarei aqui.
Colocação das polainas.
Há quem use as polainas por dentro das calças impermeáveis e quem as use por fora, que é o mais lógico. No entanto o método correto não é apenas cobrir as calças, pois isso irá fazer com que a água acabe por penetrar pelo fecho superior e irá depois descer pelas calças e chegar às meias e botas.
A melhor forma de evitar esse problema e a limitação de movimentos associada às calças "esticadinhas" cobertas pelas polainas, é repuxar as calças, após ter colocado e ajustado as polainas, de forma a criar uma folga de uns 10cm/15cm, de modo a que seja possível dobrar essa folga sobre a zona do fecho elástico superior das polainas.
Com este método a água irá descer ao longo das calças e passar por cima da zona de fecho, que se manterá sempre protegida, mesmo ao dobrar os joelhos.
Não tenho qualquer interesse económico nem estou relacionado com as lojas que indiquei para efeitos de indicação de preços.
Peço que se copiarem o texto ou se o vierem a usar noutras publicações façam menção à sua autoria.
Vítor Teixeira © 2022
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